Há alguns meses comprei o livro “Dando vida a desenhos“, volume 1 (Drawn to life), de Walt Stanchfield. Acho que já comentei sobre isso, não? OK, mas o foco agora é um pouco diferente.
O livro tem umas 400 páginas e tento percorrê-las todas, linha por linha, sketch por sketch. Sem pressa. No entanto, lembro claramente que a primeira vez que vi esse livro não dei muita atenção. No ocasião não me pareceu lá grande coisa, pois os desenhos propositadamente “rabiscados” não me inspiraram nada naquele momento. E olha que nessa época eu estava em Los Angeles tendo aulas de figure drawing algumas vezes por semana, na Concept Design Academy e nos workshops do Art Center College. Claro, muito se falava desse livro por lá, mas mesmo assim não me bateu o sino. Sabe como é? Pois é…
Hoje, analisando o fato de que passo horas e horas por semana debruçado em suas páginas, lendo e analisando com cuidado seus traços – e melhor – sentido os benefícios dessa leitura em meus próprios desenhos, me pergunto: por quê tal interesse não me bateu naquele exato instante que peguei o livro, mas somente agora, vários meses depois?
Minha conclusão: simplesmente não era o momento.
Na época eu estava preocupado em melhorar meus fundamentos em anatomia, conhecer melhor como são os músculos, ossos, volumes e etc. Interessante é que imagino que tal interesse surgiu AGORA justamente porque já me sinto mais confortável e seguro com o que estudei antes.
Conforme palavras do Kevin Chen, diretor da CDA, é importante deixar que o tempo e a prática nos ajudem a assimilar o que estamos aprendendo. E isso faz todo o sentido, pois do contrário vamos ter milhões de informações armazenadas e nada faremos com elas. Precisamos avançar os estágios do aprendizado, um a um, na medida em que eles se apresentem para nós.
E o tempo que cada estágio do aprendizado se apresenta para cada indivíduo é diferente. Cada um tem seu MOMENTO. O importante é continuar estudando e treinando diariamente para “liberar a fila” do aprendizado que já está em nossa mente. Só assim chegaremos ao ponto que queremos. Então já sabe: desenhe!
Cada desenho tosco que fazemos libera a fila para os melhores que virão. Não é fácil. Exige dedicação e paciência, às vezes é frustrante, mas o retorno vale todo o esforço. Para finalizar, separei algumas frases de “Walt Stanchfield” que me foram úteis em momentos diferentes. Mesmo que não seja o SEU momento para assimilá-las, talvez seja o de alguém:
“Não temos que copiar o obter uma representação fotográfica, mas, em vez disso, estudar e captar a essência das poses.”
“O objetivo é encontrar a essência do gesto e fazer todas as partes do corpo contribuírem para melhorar esse gesto”
“Conhecimento é a única coisa necessária para planejar o caminho, mas energia é a coisa necessária para fazer tudo acontecer”
“Duas linhas são tudo o que você precisa para localizar e sugerir as várias partes dos braços e das pernas – preferencialmente uma delas reta e a outra curva”
“Devemos ser emocionais em relação ao nosso tema, quer ele tenha a ver com assuntos sérios, quer com humor. Não podemos abrir mão de nossas emoções – se fisermos isso, o resultado será a mera reprodução anatômica.”
“Um desenho ou uma cena não está acabada quando uma representação material for feita; ele está acabado depois que uma representação sensível de uma emoção for criada.”
“desenhe verbos, não substantivos. Um substantivo é algo que pode ser nomeado; um verbo é aquela coisa wue recebeu o sopro da vida.”
“A questão é: você quer aprimorar sua habilidade e sensibilidade até o ponto em que possa expressar qualquer gesto que seja convidado a desenhar. É emocionante ver um desenho bem feito, mas é profundamente emocionante ver um desenho que expresse gesto, humor, sentimento ou ação significativa.”
“A intensidade do ângulo normalmente depende da intensidade da emoção ou do humor por trás da pose”
“O processo de aprendizagem é divertido. O que ele faz é destruir uma grande quantidade de orgulhos falsos”
“Desenhe idéias, não coisas; ação, não poses; gestos, não estruturas anatômicas”
“É preciso muita coragem para ser jovem, para continuar crescendo – não se acomodar e aceitar”
“história: não faça um desenho sem ela”
“Ninguém imaginaria criar um carro montando pilhas de parafusos, porcas, e peças diversas. Nem você deve imaginar iniciar um desenho montando vários ossos, músculos e partes diversas. (…) isso é obstáculo mais óbvio no caminho – começar pelas partes”
“T+H=F, Talento + Habilidade = Felicidade. Que sua vida seja repleta de felicidade”
Na boa, eu adoro esse cara. ; )


























12 comments
JCMaia says:
Nov 5, 2011
caro amigo do thecab, vou aproveitar e deixar a dica que me esqueci no seu post anterior sobre o stanchfield:
ele era um professor de classes lotadas e lista de espera que morreu sem deixar livro escrito. todas essas “dicas” são na verdade os folhetos que ele desenhava, copiava e passava pros alunos em cada aula.
há alguns anos alguns dos ex-alunos dele começaram a fazer compilações do material e editar em forma de livro.
uma delas é Walt Stanchfield Gesture Drawing for Animation
procurem e baixem o pdf, tem mais de 200 páginas e não tem copyright; não é pirataria.
o material dele é fantástico!
Anonymous says:
Nov 5, 2011
Boa dica, JC, valeu!
Gregório Moreira says:
Nov 6, 2011
Cara, seu blog é bom D+! Parabéns e obrigado por mantê-lo.
Anonymous says:
Nov 6, 2011
Valeu Gregório! Bom ter vc com a gente também. Abs
Diego says:
Nov 6, 2011
Ótimo post, remontti!
De fato, o legado do Stanchfield é de tamanha importância para o estudo acadêmico da animação mundial. Tenho usado bastante o Stanchfield em minha dissertação.
Aproveitando o assunto, fica também a dica de estudar o veterano Glen Vilppu, que para mim tem contribuído muito na fruição do gestual. Em seu artigo publicado “Never Understimate the Power of Life Drawing”, ele menciona uma distinção onde “Na animação, desenhamos quase que exclusivamente da imaginação e, portanto, precisamos ser capazes de construir uma figura pelo olho da mente. Na ilustração, o artista geralmente adquire um modelo ou utiliza fotografias para trabalhar, se necessário.” Segundo ele, a prática do desenho gestual é o que irá proporcionar a expressividade na animação de um personagem, e não a simples prática de cópia de modelos.
Fica a dica e continuemos discutindo o tema.
Grande abraço,
Diego
Francisco Nqatsi says:
Nov 6, 2011
“É preciso muita coragem para ser jovem, para continuar crescendo – não se acomodar e aceitar”
obrigado pelo post
Lucas says:
Nov 8, 2011
Ótimo material, cada vez mais complexa essa mania de querer desenhar…
Sanderson Santos says:
Dec 12, 2011
Comprei esse livro devido a indicação do Blog. Recomendo, é uma verdadeira aula de desenho e de viver a vida. Na boa, esse é o melhor blog de artes que existe, parabéns!
Leandro Garcia says:
Dec 16, 2011
Ótima dica de livro,vc recomenda algum livro de fundação?que tenha perspectiva,valores,forma, composição, proporção,formas geométricas, não no mesmo livro
Leandro Garcia says:
Dec 16, 2011
ou no mesmo livro se tiver
Lucas Ribeiro says:
Feb 23, 2012
Muito boas as dicas!
Walt Stanchfield tem q ser lembrado sempre!
Francisco lopes says:
Feb 13, 2013
Caro amigo.
Não trabalho com animação, apenas com ilustração, mas o que este livro do Walt me proporcionou em amadurecimento foi de um auxílio fantástico. Recomendo a todos aqueles que precisam avançar de forma rápida e objetiva ter os conceitos do Stanchfield sempre em mente.
Continue com este espírito de divulgação em seu blog,
Forte abraços.
Kiko- Araraquara